Nós somos o que nós sentimos

Nós gostaríamos que você nos desse a sua opinião: como lidar com as dores de nossa alma no dia-a-dia tumultuado que temos vivenciado atualmente?

Quico: Para lidarmos ou termos sob controle as dores da alma é preciso prestar atenção em nossos sentimentos e emoções. Nós os relegamos a segundo plano: precisamos ser auto reflexivo.

Hammed me diz: “Nós não sentimos errado, mas sim, interpretamos errado”. Qualquer sentimento sempre é verdadeiro, pois, na realidade, eles sempre querem nos dizer alguma coisa, mas nem sempre nossa percepção é correta. Os espíritos dizem: “Nós não somos aquilo que pensamos ser, mas sim, somos o que sentimos”. Não adianta pensarmos que somos algo se sentimos o inverso. É a maior briga que travamos com nós mesmos: querermos ser o que pensamos ser e não o que nós sentimos.

Eu acredito que cada um de nós tem uma missão peculiar, única, e que cada um vem provido pela Divindade de sentimentos específicos para caminhar na própria estrada, ou seja, rea­lizar tudo aquilo para o qual foi predesti­nado. Observando esses conceitos e colocando-os em prática é que conseguimos realmente abrandar as dores da alma. As dores da alma ou aflições só aparecem em nossa vida quando nós nos desviamos de nossa trajetória existencial. Ninguém é imperfeito, ninguém é errado, não precisamos ter medo ou receio de nossos sentimentos e emoções, porque dentro de nós não há nada de feio ou incorreto, dentro de nós existe nós mesmos – a alma em evolução. Às vezes, o nosso medo é que propicia a má interpretação de nossos sentidos internos. É preciso que prestemos muita atenção em nosso mundo íntimo. Particularmente, trago comigo uma frase interessantíssima de Buda: “Necessitamos ter presença, ou seja, estar presente em nós mesmos a todo instante.” Um dia os discípulos de um mestre indiano disseram aos discípulos de Buda: “Nosso mestre é um grande médium. O que vocês têm a dizer sobre o seu mestre? O que ele pode fazer, que milagres ele faz?”. Os discípulos de Buda perguntaram: “Que tipo de milagres seu mestre tem feito?”. Os outros discípulos responderam: “O nosso mestre levita, o nosso mestre faz materializações extraordinárias. Nós mesmos presenciamos isso, somos testemunhas! O que seu mestre Buda o que é capaz de fazer”. Eles disseram: “Quando está com fome, ele come, e quando tem sono, dorme”. O nosso mestre nos ensina quando andar, andar, quando comer, comer, quando sentar, sentar. Os outros falaram: “Do que você está falando? Chama isso de milagres? Todos fazem essas coisas?”. Os discípulos de Buda responderam: “Engano de vocês. Ninguém faz isso. Quando vocês dormem, fazem mil e uma coisas. Ao comerem, pensam em mil e uma coisas. Mas, quando meu mestre dorme, ele apenas dorme: apenas o sono existe naquele momento, nada mais. E quando sente fome, ele come. Ele está sempre exatamente no lugar onde está, ou seja, está sempre presente”.

Image courtesy of Stockimages at FreeDigitalPhotos.net

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O que nós estamos sentindo aqui e agora? Os nossos sentimentos e emoções nos dão sempre um recado porque eles vêm da profundeza do self, da alma, de nós mesmos. Nós precisamos sempre estar presentes, ou seja, com a auto-reflexão em funcionamento em nossa vida. Porque toda vez que nós dissermos assim: “Ah, não vou dar importância para esse sentimento, eu não ligo para aquele”, aquilo vai se avolumando de tal forma que se torna um enorme emaranhado, dificílimo de ser desvendado. Mas se fizermos como Santo Agostinho recomenda na questão 919a de O Livro dos Espíritos: “Toda noite reflexionar, pensar, analisar, o que você sentiu, o que você fez, o que você não fez.”, nós vamos deixando em ordem nosso armário mental. Se deixarmos o “armário bagunçado”, chegará um dia em que ele estará tão desorganizado que ficaremos estressa­dos para arrumar e não teremos tempo de deixar tudo aquilo organizado do dia para noite. Acredito que um item importante para nós não sentirmos as dores é seguirmos o próprio caminho, aliás, é essa a nossa missão aqui na Terra, somente essa. Nós fazemos tudo: fazemos caridade, lemos, casamos, descasamos, fazemos amigos, freqüentamos a casa espírita, fazemos estudos, só para certificarmos o nosso caminho, ou seja, aquele que Deus nos deu como missão. Na questão 115 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta à Espiritualidade Superior como é que fomos criados. E os espíritos respondem que nós fomos criados simples e ignorantes, mas Deus deu a cada um a própria missão. A causa de nosso sofrimento provém do desvio da nossa missão, do nosso caminho. Uma das nossas grandes vitórias sobre nós mesmos, que evita que as dores se avolumem (já que elas já são quase inevitáveis pelo grau evo­lutivo em que nós nos encontramos), é andarmos pelo caminho que é só nosso. A incorporação desse princípio, ou seja, a conscienti­zação desse princípio já é um grande alívio para as dores da alma.

 

quicoFrancisco do Espírito Santo Neto (Catanduva) é um médium espírita brasileiro. O seu “instrutor espiritual” é referido como Hammed.

 

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