Fundada el 18 de abril de 1985 por Benjamin Rodriguez B. Afiliada: Federacion Espirita de la Florida   .Email:info@spiritist.com


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 ENTREVISTA COM
FRANCISCO DO ESPÍRITO SANTO NETO
(Quico)

Cortesia de www.boanova.com

Aproveitando a recente passagem de Francisco do Espírito Santo Neto pela cidade de Belo Horizonte (MG) a serviço da Doutrina, Weller­son Santos, amigo estimado e trabalhador espírita solicitou esta entrevista com o médium psicógrafo catanduvense. Confira:

Maria João de Deus no livro Cartas de Uma Morta nos diz que a mediunidade é como uma harpa melodiosa que quando parada enferruja. Cada médium tem o início do seu trabalho mediúnico de uma forma. Como foi a sua?

Quico: O meu início nas tarefas mediú­nicas, ou seja, o despertar da mediu­ni­dade, deu-se quando eu era muito jovem. Quando criança, morava com minha família na fazenda de meus pais, numa casa muito antiga onde, durante a noite, eu registrava alguns fenômenos curiosos. Naquela época, os eventos mediúnicos eram para mim completamente desconhecidos, pois sempre recebi uma educação religiosa católica.

À noite, eu escutava passos e ruídos. Pessoas atravessavam os assoa­lhos de madeira, pois a casa possuía um porão imenso, e vinham dialogar comigo sobre vários assuntos. Algumas pessoas saíam dos quadros pendurados na parede do quarto, principalmente de um que ficava bem em frente de minha cama, o de São Domingos de Sávio, um dos santos considerados protetores da juventude católica. Com o tempo fui me acostumando com esses fenômenos e logo eles já nem me assustavam mais. Eu atribuía isso tudo a minha mente imaginativa de criança que soltava o pensamento, esperando o sono chegar. Foi, portanto, na fase infanto-juvenil que os primeiros fenômenos mediúnicos aconteceram comigo.

Depois, mais adiante, eu me lembro que a minha mediunidade aflorou ostensivamente quando eu fui assistir, com um grupo de amigos, a um terreiro de Umbanda. Na época, eu tinha aproximadamente 18 anos. Fomos assistir curiosamente à reunião umban­dista, como qualquer jovem, ávido de aventuras, experiências e com uma postura muito crítica. Todos os meus amigos participaram do círculo formado, segundo os rituais umbandistas, a fim de ver os transes, os cantos e tambores, enfim, como aconteciam as coisas ali naquele momento. Foi enorme surpresa. Os meus braços começaram a formigar, como se eu tivesse dormido em cima deles, tinha uma sensação de estar sem braços, ou seja, “braço bobo” como se diz no ditado popular, e depois esta sensação tomou conta do meu corpo inteiro. Os meus amigos disseram que eu havia recebido o espírito de um preto velho. No entanto, não me lembrava de nada, absolutamente. Aquilo me assustou muito e nunca mais voltei em qualquer terreiro de Umbanda, pois eu receava que o fenômeno se repetisse.

De nada adiantou. A partir desse fato, começaram a acontecer cada vez mais essas sensações mediúnicas que antecedem a incorporação. Fui atraído, como o ímã atrai os alfinetes.

No entanto, foi em 1973 que, pela primeira vez, tomei contato com as obras O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, e Voltei, do Irmão Jacob, psi­cografia de Chico Xavier, presentes do querido Diomar Zeviani – amigo que muito me orientou na questão doutrinária espírita.

Quando eu li esses livros, registrei que seus ensinamentos eram para mim muito familiares. Era meu primeiro contato com as obras, mas a sensação era de que já havia lido ou ouvido tudo aquilo em algum lugar. “Nada acontece por acaso”. Assim refletindo, consigo visualizar claramente toda a fase de preparação pela qual passei, a fim de poder, hoje, contribuir humildemente com meus poucos recursos de médium no trabalho iluminado do Espiritismo.

Allan Kardec em O Livro dos Médiuns no capítulo XV nos fala que na psicografia existem médiuns mecânicos, intuitivos, semimecâ­nicos, inspirados e de pressentimentos. No seu trabalho mediúnico, como isso se manifesta?

Quico:Eu acredito que tanto minha me­diunidade de psicografia como a de psicofonia funcionam numa fusão de alguns aspectos mediúnicos. Eu classifico a minha mediunidade como semi­mecânica. Em muitas ocasiões, sinto que eu escrevo inspirado. Em outras, vejo e escuto os espíritos e escrevo. Em outras oportunidades, eu durmo, sonho, converso com pessoas que me dizem coisas e as registro, prontamente, ao acordar. Geralmente, quando eu estou escrevendo um livro, os espíritos utilizam muito o fenômeno do desdobramento durante o sono físico para conversarem comigo. Quando eu estou levando a mensagem por um caminho inadequado ao contexto do livro, ou seja, não está como os espíritos desejam, sonho e eles me dizem que algo precisa ser mudado ou reescrito. Ao acordar, faço a correção necessária, tal qual o Espírito me orientou.

Na incorporação, quase sempre, as mensagens que recebo dos Benfeitores Espirituais são gravadas e transcritas para o papel. Acredito que a minha me­diunidade funciona como uma união íntima resultante de combinação de várias mediunidades que me facilitam o desempenho medianímico.

Tenho relativa facilidade para escutar nomes, frases inteiras ditadas pelos espíritos. Registro mensagens de entidades familiares, ouço nomes e fatos que ocorreram com os espíritos. Essa mediunidade auditiva facilita muito o recebimento de mensagens.

Alguns médiuns, quando estão psicografando um livro, têm um horário preestabelecido para execu­tarem esse trabalho. No seu caso, existe ou somente acontece quando vem a inspiração de Hammed?

Quico:Hammed quis no início estabelecer um horário. Mas depois ele percebeu que a minha mediunidade funciona mais por inspiração. No entanto, isso não significa que não obedeço a horários estabelecidos pelos Benfeitores. Às vezes escrevo inspirado e depois, quando algo precisa ser modificado, a Espiritualidade avisa-me no sono ou em momentos de prece. Na realidade tenho alguns horários: duas ou três vezes por semana, durante a tarde, deixo reservado um espaço para o trabalho de psicografia.

Regularmente tenho trabalhos às quartas e às quintas-feiras à noite. Nas quartas-feiras realizo um trabalho de psicografia durante uma tarefa pública, ou seja, psicografo durante as pales­tras. Nas quintas-feiras temos reunião de desobsessão, nas quais recebo algumas mensagens escritas e no final, através da psicofonia. Esses são infalíveis, são horários marcados. Nos outros dias da semana, fica assim por conta da inspiração.

As obras do espírito Hammed como as do espírito Joanna de Ân­ge­lis conjugam com maestria conceitos da psicologia inseridos na perspectiva da Doutrina Espírita. Como vê esse trabalho, inclusive na ajuda junto aos psicólogos e psiquiatras, que indicam os livros desses espíritos aos seus pacientes?

Quico: Vejo com muita alegria o trabalho de Hammed e a obra extraordinária de Joanna de Ângelis, porque, na realidade, tenho como formação profissional o curso de Administração de Empresas: não tenho nenhuma formação na área da psicologia. Tenho muitos amigos psicólogos, alguns fazem parte das Associações de Psicólogos Espíritas do Estado de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, outros tantos do Nordeste, e todos são unânimes em me dizer que fui um elemento utilizado pelos espíritos, porque não tinha qualquer conhecimento de psicologia, o que de certa forma me facilitou o recebimento destas obras mediú­nicas. Para os espíritos eu era papel “virgem” ou “em branco”. Esses meus amigos psicólogos me dizem, precisamente no livro As Dores da Alma, que não tenho noção da validade e da diversidade de conceitos e exemplos lúcidos que foram ali registrados pelas minhas mãos, através do lápis mediú­nico. O livro A Imensidão dos Sentidos é também muito admirado por eles pela abordagem psicológica com que Hammed analisa os diferentes aspectos da personalidade dos médiuns e a influência desses mesmos aspectos nas mensagens por eles transmitidas.

É bem verdade a sua afirmação, os livros de Hammed estão sendo utilizados por diversos psiquiatras e psicólogos espíritas no tratamento de seus pacientes, ou mesmo no estudo de diversas casas espíritas. Isso me traz muito contentamento, porque vejo que as pessoas estão retirando conceitos importantes para a reforma íntima ou transformação moral. Digo isso sem qualquer conotação de orgulho, porque sei que estas tais não me pertencem, e sim, aos espíritos superiores.

Essas obras muito me consolam, principalmente nos meus dias de conflito. Por isso, sempre tive um grande interesse em estudar o comporta­mento humano. Neste momento recordo-me de algo: toda vez que fazia as minhas preces, para aliviar minhas dores morais, pedia para os “psicólogos do além” para me auxiliarem. Eu acredito piamente que eles me ajudaram. Atenderam aos meus pedidos.

Poucos documentos se têm a respeito da vida de Hammed. Afinal, quem é esse Espírito que vem de uma forma tão sábia e simples nos trazer tantos ensinamentos? Você pode trazer mais alguma informação?

Quico: Realmente, Hammed é um Espírito de muita sabedoria e eu tive o privilégio da sua convivência em algumas de minhas encarnações e, na atual, a convivência mediúnica no dia-a-dia. Obviamente, é por isso que temos esta parceria nos livros psicografados. Certa feita ouvi Chico Xavier dizer que “de nada não sai nada”. Nossa relação é muito estreita. Às vezes, ele me solicita para que me organize melhor, leia algum texto, um livro, o qual supostamente ao acaso eu pego em uma livraria. Depois ele me diz assim: “Você alcançou o livro certo, porque era isso que você tinha que ler para poder aprender e poder melhorar, fa­cilitando os nossos encontros para a psicografia dos livros”. Então, toda essa orientação intuitiva acontece. Hammed tem sido para mim um professor, um pai, um terapeuta e, acima de tudo, um amigo. No entanto, eu acredito que a sua amizade para comigo é o item mais importante, pois ele respeita as minhas questões pessoais, o que eu sou, o que eu sinto, a minha forma de ser e de pensar. Ele também me indica caminhos, no entanto, não impõe e nem espera que eu os siga. Quer dizer, ele me aponta meta e sugere decisões e como não sou bobo nem, nada eu sempre sigo (risos).

Em uma de minhas encarnações eu convivi com Hammed na Índia, em Calcutá, no ano 1000. Ele era um sacerdote de uma seita hinduísta, por isso tem bagagens nas áreas da meditação, reencarnação, concentração e outras tantas adquiridas nas vidas pretéritas no oriente. É o que eu também registro: percebo que nós tivemos uma vida intensa e calorosa, no sentido de lutar por idéias, religiões, filosofias. Participamos juntos em conflitos religiosos, por exemplo, no Jansenismo, uma facção católica nascida na França no século XVII. Os jansenistas eram pessoas extremamente rígidas e inflexíveis quanto as suas idéias e ideais. Acreditavam numa verdade absoluta, ou seja, diziam que algumas pessoas nasciam pré-destinadas por Deus para serem salvas e, as outras que não tivessem sido pré-destinadas, por mais que fizessem nunca entrariam na glória divina. Era uma doutrina nascida no catolicismo, uma facção religiosa muito puritana e conservadora. Hammed participou desse movimento. Morava em um convento nos arredores de Paris onde residia a grande massa janse­nista da época, isto no século XVII. Inclusive Pascal, o grande cientista e matemático, pertenceu a facção e outros tantos indivíduos de grande signi­ficância na França daquela época.

Na segunda metade de 1600 esse convento foi dizimado por ordem do Rei Luis XIV da França. Após a morte do rei, ficou como regente sua esposa, Ana da Áustria, assessorada pelo iluminado São Vicente de Paula que é uma personagem da mesma época. Hammed, nesta existência como jan­senista, obteve amplos conhecimentos a respeito do catolicismo, do cristianismo, pois desde essa época ele fazia pontes entre as religiões orientais e as ocidentais.

Todo esses detalhes foram por mim registrados através da mediu­nidade, ou seja, por meio dos relatos dos Amigos Espirituais. Aliás, quando ele me falou do convento Port-Royal de Paris, disse-me também do outro convento que era denominado Port-Royal des Champs (do campo). Este último foi destruído e o de Paris ainda existe. Outros detalhes, eu os sei por meio de uma sociedade francesa denominada “Amigos de Port-Royal” a qual descobri por “acaso” na internet. Não sei falar francês, mas tenho uma amiga que traduz muitas coisas para mim. Esse pessoal da França me perguntava porque eu era a única pessoa da América do Sul a ser filiada a tal sociedade. Eles achavam curioso, mas nunca expliquei a verdadeira razão: só disse que me interessava pela história das religiões. Lourdes Catherine, que escreveu o livro Conviver e Melhorar em parceria com o Espírito Batuíra, foi contemporânea de Hammed nesta época. Enfim, depois de algum tempo, recebi deles relatos e fotos dos retratos pintados a óleo destes dois espíritos amigos e, eram idênticos aos que eu já tinha obtido por meio da mediunidade (retratos falados deles, pintados por um amigo, por meio de minha vi­dência). Realmente, quando recebi as fotos dos dois, da França, enorme foi minha alegria por ver que o quadro de Lourdes Catherine e o de Hammed eram praticamente iguais aos pintados por meu amigo pintor. Isso me deu mais uma certeza de que a mediu­nidade é algo surpreendente e maravilhoso, porque todo médium precisa ser também crítico da própria mediu­nidade. Tenho um lema comigo: nunca vou de cabeça nas coisas que faço. Creio que a mente tem um poder muito grande de imaginação e nós precisamos contro­lá­-la para evitar delírios ou distorção das coisas. Nossa mente é fantástica, mas desconhecida.

Isto me certificou das autênticas personalidades deles nesta época. O Espírito Lourdes Catherine foi uma condessa pobre, que vivia aos cuidados de uma duquesa rica no convento. E Hammed foi sacerdote e ao mesmo tempo médico (atualmente Hammed trabalha na área das idéias, da filosofia, e não da medicina ou da cura). Sempre que eu falo de Hammed, regis­tro a vivência no Jansenismo. Inclusive, recentemente fui conhecer o convento de Paris, que ainda existe e está em excelente estado de conservação. Graças a Deus, eu consegui visitá-lo e foi uma experiência emocionante, uma coisa maravilhosa.

O nome Hammed é um pseudônimo?

Quico: É um pseudônimo.

O livro Renovando Atitudes é todo inspirado em O Evangelho Segundo o Espiritismo. É uma obra fantástica porque traz de uma forma contundente a Reforma Íntima, que é um dos pilares para a evolução humana. Como é feito o trabalho de psico­grafia nesse caso? É o Espírito quem escolhe os versículos e depois os explica ou é feito todo um trabalho de pesquisa pela editora e/ou médium e depois o espírito psicografa discorrendo sobre o assunto?

Quico: Os livros do Hammed são confeccionados da seguinte forma: ele traz o esqueleto do livro. É ele quem escolhe os capítulos e os itens a serem comentados. De que forma? No caso do Renovando Atitudes, peguei o Evangelho e fui lendo. Ele ia me dizendo e através da audição eu anotava os textos escolhidos. Portanto, é ele quem marca, quem sinaliza para todos os capítulos e itens. Eu os coloco em uma folha em branco e ele começa a tecer os comentários através da psico­grafia. Hammed está sempre presente, seja nas reuniões públicas de psico­grafia ou por meio da psicofonia nas reuniões de quinta feira. Esta última é uma reunião de de­sob­sessão e, no término da tarefa, Hammed transmite a mensagem final, ou também, nos dias de semana, durante a tarde, período em que eu me predisponho ao recebimento de mensagens me­diúnicas. Ele comenta e ao término coloca o título das mesmas. Acho fantásticos os títulos escolhidos por Ham­med, porque ele consegue sintetizar e ser muito original. Quer dizer que ele programa o livro e depois o recheia. Ou seja, ele escolhe os ingredientes do bolo e depois coloca o chocolate, o glacê, ele confeita o bolo.

Nós gostaríamos que você nos desse a sua opinião: como lidar com as dores de nossa alma no dia-a-dia tumultuado que temos vivenciado atualmente?

Quico: Para lidarmos ou termos sob controle as dores da alma é preciso prestar atenção em nossos sentimentos e emoções. Nós os relegamos a segundo plano: precisamos ser auto reflexivos.

Hammed me diz: “Nós não sentimos errado, mas sim, interpretamos errado”. Qualquer sentimento sempre é verdadeiro, pois, na realidade, eles sempre querem nos dizer alguma coisa, mas nem sempre nossa percepção é correta. Os espíritos dizem: “Nós não somos aquilo que pensamos ser, mas sim, somos o que sentimos”. Não adianta pensarmos que somos algo se sentimos o inverso. É a maior briga que travamos com nós mesmos: querermos ser o que pensamos ser e não o que nós sentimos.

Eu acredito que cada um de nós tem uma missão peculiar, única, e que cada um vem provido pela Divindade de sentimentos específicos para caminhar na própria estrada, ou seja, rea­lizar tudo aquilo para o qual foi predesti­nado. Observando esses conceitos e colocando-os em prática é que conseguimos realmente abrandar as dores da alma. As dores da alma ou aflições só aparecem em nossa vida quando nós nos desviamos de nossa trajetória existencial. Ninguém é imperfeito, ninguém é errado, não precisamos ter medo ou receio de nossos sentimentos e emoções, porque dentro de nós não há nada de feio ou incorreto, dentro de nós existe nós mesmos - a alma em evolução. Às vezes, o nosso medo é que propicia a má interpretação de nossos sentidos internos. É preciso que prestemos muita atenção em nosso mundo íntimo. Particularmente, trago comigo uma frase interessantíssima de Buda: “Necessitamos ter presença, ou seja, estar presente em nós mesmos a todo instante.” Um dia os discípulos de um mestre indiano disseram aos discípulos de Buda: “Nosso mestre é um grande médium. O que vocês têm a dizer sobre o seu mestre? O que ele pode fazer, que milagres ele faz?”. Os discípulos de Buda perguntaram: “Que tipo de milagres seu mestre tem feito?”. Os outros discípulos responderam: “O nosso mestre levita, o nosso mestre faz materializações extraordinárias. Nós mesmos presenciamos isso, somos testemunhas! O que seu mestre Buda o que é capaz de fazer”. Eles disseram: “Quando está com fome, ele come, e quando tem sono, dorme”. O nosso mestre nos ensina quando andar, andar, quando comer, comer, quando sentar, sentar. Os outros falaram: “Do que você está falando? Chama isso de milagres? Todos fazem essas coisas?”. Os discípulos de Buda responderam: “Engano de vocês. Ninguém faz isso. Quando vocês dormem, fazem mil e uma coisas. Ao comerem, pensam em mil e uma coisas. Mas, quando meu mestre dorme, ele apenas dorme: apenas o sono existe naquele momento, nada mais. E quando sente fome, ele come. Ele está sempre exatamente no lugar onde está, ou seja, está sempre presente”.

O que nós estamos sentindo aqui e agora? Os nossos sentimentos e emoções nos dão sempre um recado porque eles vêm da profundeza do self, da alma, de nós mesmos. Nós precisamos sempre estar presentes, ou seja, com a auto-reflexão em funcionamento em nossa vida. Porque toda vez que nós dissermos assim: “Ah, não vou dar importância para esse sentimento, eu não ligo para aquele”, aquilo vai se avolumando de tal forma que se torna um enorme emaranhado, dificílimo de ser desvendado. Mas se fizermos como Santo Agostinho recomenda na questão 919a de O Livro dos Espíritos: “Toda noite reflexionar, pensar, analisar, o que você sentiu, o que você fez, o que você não fez.”, nós vamos deixando em ordem nosso armário mental. Se deixarmos o “armário bagunçado”, chegará um dia em que ele estará tão desorganizado que ficaremos estressa­dos para arrumar e não teremos tempo de deixar tudo aquilo organizado do dia para noite. Acredito que um item importante para nós não sentirmos as dores é seguirmos o próprio caminho, aliás, é essa a nossa missão aqui na Terra, somente essa. Nós fazemos tudo: fazemos caridade, lemos, casamos, descasamos, fazemos amigos, freqüentamos a casa espírita, fazemos estudos, só para certificarmos o nosso caminho, ou seja, aquele que Deus nos deu como missão. Na questão 115 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta à Espiritualidade Superior como é que fomos criados. E os espíritos respondem que nós fomos criados simples e ignorantes, mas Deus deu a cada um a própria missão. A causa de nosso sofrimento provém do desvio da nossa missão, do nosso caminho. Uma das nossas grandes vitórias sobre nós mesmos, que evita que as dores se avolumem (já que elas já são quase inevitáveis pelo grau evo­lutivo em que nós nos encontramos), é andarmos pelo caminho que é só nosso. A incorporação desse princípio, ou seja, a conscienti­zação desse princípio já é um grande alívio para as dores da alma.

A proposta trazida pelos autores espirituais do livro Conviver e Melho­rar é a de buscar auxiliar o ser humano para que ele tenha um bom relacionamento consigo mesmo, para que, em seguida, possa lidar melhor com as personalidades difíceis com as quais convive no dia-a-dia. Como é psicografar dois espíritos distintos numa mesma obra? Como se deu o contato com eles? Existe a possibilidade de outros livros serem escritos por eles?

Quico: Sim, existe possibilidade, no entanto, é preciso que haja programas espirituais para que isso ocorra. O grande detalhe é que eu não sei se vou dar conta do recado, mas, se eles fizerem nova proposta, vou me esforçar.

É muito gratificante psicografar dois espíritos com personalidades completamente diferentes. Batuíra é um trabalhador espírita que viveu recentemente em São Paulo, ou seja, no século XIX e desencarnou em 1909. Ele possui uma bagagem doutrinária eminentemente alicerçada nas obras básicas e um amplo conhecimento do Movimento Espírita. Conseguiu colocar um aspecto muito interessante no livro que é a organização e a administração da Casa Espírita. Pode-se dizer que ele fez um trabalho de administrador de empresa. As pessoas que lêem o livro Conviver e Melhorar aprendem a lidar com os amigos e parentes no social e com os trabalhadores e voluntários na Casa Espírita e a fazer uma boa gestão administrativa nas áreas sociais, doutrinárias e de divulgação espírita.

Lourdes Catherine viveu em sua última encarnação no século XIX, em Bordeaux, na França. Nessa época, ela conheceu Allan Kardec, pois ele fazia divulgações do Espiritismo em algumas cidades do sul da França, inclusive em Bordeaux, e ela teve a oportunidade de assistir a uma palestra proferida por ele. Tornou-se espírita depois desse encontro. Lourdes Catherine também é um pseudônimo. Ela é um Espírito meigo, muito doce, é uma alma que fala de flores, colocando em suas escritas toda uma explicação por meio de metáforas, usando a mitologia, o simbolismo das flores. Batuíra já é um Espírito mais enérgico. Posso dizer que psico­grafar o livro Conviver e Melhorar foi de certa forma um trabalho árduo, porque ora tinha que colocar minha mente na personalidade de Batuíra, ora na de Lourdes Cathe­rine. Não foi muito fácil, mas eu acredito que eles conseguiram exprimir da maneira clara o que se propuseram a fazer, ou seja, escrever o livro Conviver e Melhorar.

No livro A Imensidão dos Sentidos, o espírito Hammed além de fazer um trabalho voltado ao Livro dos Médiuns envolve-nos numa aná­lise dos cinco sentidos. E o sexto sentido, como analisá-lo em todo este conceito da sensibilidade humana?

Quico: Allan Kardec faz um trabalho genial em O Livro dos Médiuns. Nós acreditamos que seja uma obra basilar na orientação para todos aqueles que têm sensibilidade mediúnica. Nessa obra, Hammed não só estuda o cinco sen­tidos, mas, especificamente, o sexto sen­tido. Ele diz: “Os cinco sentidos humanos são a base de todas as percepções físicas, mas, quando somamos a eles o “sexto sentido”, não só experimentamos um maior grau de consciência existencial como também passamos a descortinar os mistérios da vida invisível”, ou seja, diz que os cinco sentidos ajudam o sexto, e o sexto sentido ajuda os cinco numa relação recíproca. Existe uma fusão, fusão essa que proporciona ao indivíduo uma lucidez mental para se guiar na vida. Ele coloca o sexto sentido como sendo um elemento natural do ser humano que deve ser usado convenien­temente. Em mediunidade nunca devemos descartar a auto-análise dos cinco sentidos, pois “para desenvolver a mediuni­dade, é necessário, inicialmente, aprender a comunicar-se com os próprios sentimentos para, a partir daí, entrar em contato com os de outras pessoas (encarnadas ou não). O Criador guia suas ­criaturas utilizando a capacidade intelectual/sensorial delas de avaliar seu reino íntimo”, diz Hammed.

O que eu vejo, escuto, falo, o que percebo com o tato, o olfato, o paladar são sensações que interagem no transe mediúnico. Nesse livro, ele faz um estudo do comportamento dos médiuns e, ao mesmo tempo, exemplifica-o. Por exemplo: se o estilo pessoal ou o modo de expressar do sensitivo for de caráter intolerante, perfeccionista, melindroso, o indivíduo não entra plenamente em transe mediúnico com as Esferas Superiores, mas, sim, identifica-se com seu próprio mundo de mágoa, inflexibilidade.

Como é que o sexto sentido funcio­na? Como age sua personalidade ou área anímica nas comunicações espi­rituais? No médium mais flexível, segu­ro, conscientizado, os espíritos conseguem encontrar maior facilidade no transe, sem grandes interferências do sensitivo. Sucessivamente, Ham­med vai fazendo estudos da personalidade, do conteúdo psicológico dos médiuns, do caráter e vai fazendo pontes com o sexto sentido e com as mensagens recebidas - que são subproduto dessas estruturas íntimas. Eu acho tudo muito interessante. Por exemplo, Hammed diz que nosso entendimento é limitado. Muitas vezes não compreendemos porque muitos médiuns têm facilidade de receber mensagens de cunho inovador e outros médiuns possuem sérias dificuldades, permanecendo no mesmis­mo. Apesar de toda aquela classificação que Allan Kardec descreve em O Livro dos Médiuns: médiuns historiadores, poetas, recei­tistas, científicos, filósofos, religiosos, etc., ainda é preciso acrescentarmos a estrutura psicológica do médium nas comunicações recebidas. Vejamos: um médium historiador pode produzir muito bem, mas se ele for conservador, suas mensagens históricas terão uma atmosfera de conser­vadorismo. Já um médium historiador com comportamento aberto e flexível poderá transmitir mensagens históricas sobre um aspecto novo, ou seja, envolvidas em uma visão nova. Um médium poeta pode receber mensagens de uma forma tradicionalista, mas se ele for flexível ele pode trazer poemas de um cunho mais original, renovador, inédito. Eu acredito que A Imensidão dos Sentidos é um livro muito interessante. Eu o utilizo muito para os meus estudos pessoais e com a equipe com a qual trabalho mediuni­camente. Eu o aprecio muito, sempre o leio para saber lidar com meus pontos fracos, meu lado inflexível. Porque nós sempre estamos atraindo criaturas (encarnadas ou não) com nosso lado que está em evidência na época. Nós somos uma fusão de vários sentimentos e emoções.

Em determinada época nós esta­mos mais ciumentos e atraímos espíritos ciumentos. Isso é anímico. Aliás, aní­mico vem de animus (alma): nós atraímos com a nossa aura determinados espíritos, eles sentem-se atraídos pela nossa área frágil. Se nós estamos depressivos, em certas épocas da vida em que sofremos algumas “quedas vibratórias ”, atraímos, certamente, espíritos depressivos. A mediunidade é sempre um termômetro para sabermos como estamos indo interiormente, o que temos que mudar. O que nós estamos atraindo revela como está o nosso mundo íntimo.

Quando começo atrair alguns tipos de pessoas (encarnadas ou não) para a minha vida, aí eu me pergunto: “Quico, o que é que você está emitindo energeticamente. Porque estão aparecendo muitas pessoas em sua vida com este tipo de problema? Onde tudo isso está em você? Você está percebendo, você já se deu conta de que de certa forma a sua antena está captando ou atraindo estas emissões.”

Tudo isso que falei é uma visão muito pálida do que Hammed me transmitiu ao escrever o livro A Imen­sidão dos Sentidos. No entanto, minha me­diunidade funciona em tantos outros aspectos que seria impossível transmiti-los numa entrevista.


 

 

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